Quantos artistas independentes vocês conhecem? – Por Alexandre Lemos

Não tenho como saber quantos de vocês conhecem artistas independentes da música, menos ou mais conhecidos. Também não posso saber quantas canções vocês conhecem desses artistas que vocês conhecem. Quanto menos artistas desses vocês conheçam e quanto mais vocês gostem de ouvir canções boas, mas principalmente de estilos variados, a solução é recorrer ao repertório que o Brasil criou antes da mentalidade de mercado se tornar poderosa o suficiente para dividir a canção brasileira em, no máximo, dois ou três estilos, massificados ao limite da exaustão em todos os veículos de comunicação.

Pela natureza do meu ofício, e por me interessar muito pelo assunto, tenho a alegria de saber que o mercado jamais me impediu de conhecer a pluralidade musical que segue sendo a marca registrada da canção brasileira. Se não somos apenas o país do sertanejo ou do funk, também não somos apenas o país do samba ou da MPB tradicional. Somos isso tudo e muito mais, do rock ao xote, do reggae à guarânia, do folk ao carimbó.

Tenho a sorte, portanto, de conhecer canções de todo tipo, de todo canto, de toda gente. Canções inovadoras, canções tradicionais, canções experimentais, canções pop, canções com refrões, canções com letras intermináveis, canções de amor, canções de dor de amor, canções de indignação, canções boas de assoviar. E por conhecer tantas canções, a cada dia conheço mais e mais, porque me enviam, porque me avisam, porque comentam, porque me pedem opinião.

Se não fosse assim, não saberia de tantas pessoas que fazem tantas músicas boas e sem saber dessas pessoas e das músicas dessas pessoas a minha vida teria muito menos graça.

Falei tanto da música dos outros, mas no fundo o texto de hoje é descaradamente cabotino. Escrevo porque passei o dia ouvindo e reouvindo uma renca de canções novas que fiz, sozinho e com parceiros, e que são muito boas, e que estou começando a gravar para em seguida lançar e, finalmente, ninguém ouvir hahahahahaahahah.

Mas é que são mesmo canções muito boas, tanto quanto as canções dos outros que eu conheço e que quase ninguém conhece. Claro que esse ciclo permanente de desencontros entre artista e sociedade é suficiente para frustrar o artista. Mas creiam, eu que ouço tanto essas tantas canções boas de tantas pessoas por aí posso afirmar que quem perde mais não é quem canta e não é ouvido, quem perder mesmo é quem não ouve o artista cantar.

Claro que se pode dizer que minha afirmação é soberba, é puxar sardinha pro meu lado. Em resposta, digo que uma obra de arte, ainda que seja para ser fruída por todos, pode se bastar em si e se perpetuar plena em ser uma obra de arte. Mas a pessoa que não frui a arte de seu tempo, essa pessoa está deixando de viver o melhor que sua geração é capaz de fazer.

Que pena.

Alexandre Lemos